Há, em muitos de nós que somos Igreja, uma tentação grave de não falar claro. De meter muita maquilhagem nas palavras. Porque elas podem ofender alguém ou o establishment. Porque achamos que os nossos interlocutores são uns imbecis, incapazes de pensar pela própria cabeça, incapazes de aceitarem ou rejeitarem com liberdade e responsabilidade aquilo que dizemos.
Um exemplo recente:
No dia 5, na Forma(c)ção mandei umas "bocas" a respeito dos novos catecismos. É público e notório que estou cada vez mais crítico em relação aos méritos destes novos catecismos. Quer em termos do produto em si, do processo que os gerou e dos resultados que deveriam produzir.
É certo que ainda não tive a coragem (ou a paciência) de fazer aquilo que fiz na minha tese de mestrado, que seria analisar sistematicamente todos os textos, de fio a pavio, e provar por "a+b" as razões da minha (e não só) crítica.
Mas os "erros" catequéticos e as limitações estruturais de que padecem são facilmente judicáveis.
Enquanto escrevo isso num blog ou na revista Catequistas, o feedback não é muito. Ou porque as pessoas não lêm ou porque não sabem/querem responder ou contestar a minha opinião e a minha avaliação.
Quando digo aquilo em público há sempre mais feedback. A maioria das pessoas acaba por concordar comigo. E alguns discordarão. O que é normal.
E depois há aquele pessoal que me diz: "Tu até tens razão. Mas é preciso ter cuidado. As pessoas podem interpretar mal"...
E é aqui que eu acho interessante pensar sobre o tipo de praxis comunicativa que queremos em Igreja. Claramente sou favorável a uma comunicação o mais clara possível. Onde todas as cartas estejam em cima da mesa. Para que todos tenham o máximo de informação para confrontar, para processar, para ir elaborando as suas opiniões.
Continuando com o exemplo: no final da minha intervenção um jovem seminarista, encheu-se de coragem e disse aquilo que provavelmente muita gente pensa: "Se os catecismos são tão desinteressantes [tao cheios de palha; expressão dele], não será preferível abdicar deles e irmos dando uns temas e umas coisas mais interessantes?"
A minha resposta foi um "NÃO" CLARÍSSIMO. E justifiquei as minhas razões.
E é por isto que eu prefiro uma praxis comunicativa que favorece a clareza. Imagina que eu não digo nada; este tipo de ideias de trocar a sistematicidade dos catecismos por umas coisas avulsas e à vontade do freguês, continua por aí, sem nunca ter oportunidade de aparecer à luz do dia, de forma larvar, sem se confrontar com críticas, sem possibilidade de evoluir.
Claro que o facto de alguém fazer críticas mina a "autoridade" seja do que for. Mas pensem bem se queremos voltar a uma postura do "come e cala-te".
Aliás, ao limite, esta é uma das razões porque sou mais crítico dos catecismos actuais. Não apenas por serem "mauzinhos" em muitos aspectos mas por serem "perigosos". Explico. As suas linitações de redacção, pedagógicas, gráficas, a confusão entre conteúdos e objectivos, as imensas confusões na hierarquia de objectivos, a sua "imensidão" palavrosa, leva uma boa parte dos catequistas a considerá-los pouco operacionais, pouco aplicáveis. Mas a maneira confusa como estão feitos empurra o catequista "médio" a tentar outras coisas; não somente ao nível da metodologia mas também ao nível dos conteúdos (porque, precisasmente, os guias não separam bem as coisas). O que é que vaia acontecer? O catequista sente-se forçado a escolher entre tentar implementar o que está proposto nos guias ipsis verbis (o que a maioria considera inviável) ou a tentar inventar. Mas se opta por inventar, a estrutura dos guias não os ajuda a perceber a diferença entre o que é nuclear e o que á relativo e acessório. E do mesmo modo que eu digo que é inútil discutir a etimologia grega da palavra "carisma" outro catequista vai-se sentir à vontade para considerar "inútil"... a ressurreição de Jesus, ou a Eucaristia.
Que alternativa? Calar-me e fazer figas para quem tudo, magicamente se componha? Ou tentar o "caminho longo" da formação, do diálogo, do estimular à mudança e à construção de uma alternativa qualitativamente superior nas práticas catequéticas e eclesiais de todos nós?
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2009/10/07
2009/04/06
Grande abanão 4
As notícias são as de sempre. A contagem dos mortos é que continua a subir.
Uma reflexão um bocado à margem, a aprofundar o que disse no post anterior.
Esta notícia (terramoto 6.3; dezenas de mortos) é notícia em Portugal. Mas se tivesse ocorrido na Índia não seria notícias em Pt. Há um filtro "geográfico" nos critérios jornalismos; mas há também "racismo". Os "nossos" mortos pesam mais do que os mortos "deles". Lembram-se da cobertura quando foi do Tsunami na Indonésia? já havia dezezas de milhares de mortos confirmados e as peças dos jornalistas PT ainda se preocupavam com o mau acompanhamento que as agências de viagens estavam a fazer...
É que apesar da proximidade que os meios propiciam, o mundo ainda não é uma aldeia; há sempre um aqui e um ali.
A 1ª notícia que o Público pôs on-line foi esta.
Tenham a paciência de ler os comentários do fim para o início.
Aquilo que me impressionou foi o solipsismo. Ou seja. hoje temos muitos meios de comunicação: jornais online, caixas abertas de comentários...
Mas a verdade é que não há comunicação. O que aqueles comentários evidenciam é que não há (porque não conseguem ou porque não podem) ligação entre os leitores-comentadores e o evento (e as pessoas vítimas do evento). A maioria dos comentários fala do seu umbigo. Por isso disse (é um pouco ridículo citar-me a mim mesmo, mas...)
É certo que a net gera uma ecologia muito básica, muito primária. Mas não sei se não haverá um problema mais sério de atitude comunicacional
Uma reflexão um bocado à margem, a aprofundar o que disse no post anterior.
Esta notícia (terramoto 6.3; dezenas de mortos) é notícia em Portugal. Mas se tivesse ocorrido na Índia não seria notícias em Pt. Há um filtro "geográfico" nos critérios jornalismos; mas há também "racismo". Os "nossos" mortos pesam mais do que os mortos "deles". Lembram-se da cobertura quando foi do Tsunami na Indonésia? já havia dezezas de milhares de mortos confirmados e as peças dos jornalistas PT ainda se preocupavam com o mau acompanhamento que as agências de viagens estavam a fazer...
É que apesar da proximidade que os meios propiciam, o mundo ainda não é uma aldeia; há sempre um aqui e um ali.
A 1ª notícia que o Público pôs on-line foi esta.
Tenham a paciência de ler os comentários do fim para o início.
Aquilo que me impressionou foi o solipsismo. Ou seja. hoje temos muitos meios de comunicação: jornais online, caixas abertas de comentários...
Mas a verdade é que não há comunicação. O que aqueles comentários evidenciam é que não há (porque não conseguem ou porque não podem) ligação entre os leitores-comentadores e o evento (e as pessoas vítimas do evento). A maioria dos comentários fala do seu umbigo. Por isso disse (é um pouco ridículo citar-me a mim mesmo, mas...)
Não costumo comentar por aqui nem vou comentar a notícia do Público (com algumas incorrecções). Estou aqui em Roma e senti bem o terramoto (estamos a 130 kms). Mas é interessante como se "vê" este acontecimento aqui (Roma) e aí (Portugal). O à-vontade como tantos comentadores falam de tudo e de nada, do que lhes vai na cabeça, do que lhes amarga o fígado, das agendas ideológicas que trazem (e que é perfeitamente legítimo) pode ser visto por quem está mais perto (e por quem tremeu de madrugada) como imensamente... ocioso. Continuem a mandar bitaites; é legítimo. Mas aqui, as mortes, as lágrimas, a impotência... legitima outras coisas. E lanço só a hipótese que comentar tragédias dessa forma pode ser sentido como insultuoso. Porque "mentiroso", na medida em que "oculta" o essencial dos factos: a experiência do comentador (seguro e sentado atrás do seu teclado) sobrepõe-se à experiência de quem perdeu tudo.
É certo que a net gera uma ecologia muito básica, muito primária. Mas não sei se não haverá um problema mais sério de atitude comunicacional
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