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2011/12/08

Fontes para a sociologia da religião em PT

Finalmente, comecei a escrevinhar algumas coisas para a tese.
Vou deixando aqui uns resumos.

Desde o final dos anos 80, os países europeus começaram a dispor de inquéritos regulares na área da sociologia da religião.

ESS

O European Social Survey (ESS) é feito cada dois anos em quase todos os países europeus e permite medir os indicadores religiosos mais fundamentais: a pertença a uma religião, uma eventual antiga pertença, um autoposicionamento de intensidade religiosa, a frequência aos actos de culto e a frequência da oração pessoal. Este inquérito aborda muitas temáticas. O que traz a vantagem de cruzar as questões religiosas com outras.
Sendo a última das grandes séries de sondagens a aparecer, houve um cuidado muito grande com os aspectos formais e metodolóogicos: “The objective of the ESS is to design, develop and run a conceptually well-anchored and methodologically bullet-proof study of changing social attitudes and values. Achieving these aims in a cross-national context requires 'optimal comparability' in the operationalisation of the study within all participating countries. This 'principle of equality or equivalence' applies to sample selection, translation of the questionnaire, and to all methods and processes. Above all, we must ensure that all procedures and outcomes are comprehensively documented in a standard way.
Este inquérito foi realizado em Portugal continental. A omissão dos dados das Ilhas pode alterar ligeiramente os valores médios nacionais. Usa respondentes a partir dos 15 anos.

EVS

O European Values Survey (EVS) é realizado cada 9 anos (1981, 1990, 1999, 2008). Portugal só não participou na primeira vaga (1981). Há um leque amplo de questões religiosas: a pertença religiosa, as frequências de culto e de oração, os ritos de passagem, a centralidade da fé, a adesão a alguns “dogmas” da fé…
Também este projecto não inclui dados das Ilhas. Usa respondentes a partir dos 18 anos de idade.

ISSP

O International Social Survey Programem (ISSP) realiza-se em cada ano. Portugal participa desde 1997. Em cada ano há um tema sociológico diferente. A temática religiosa apareceu em 1991 (Portugal não participou), em 1998 e em 2008. Usa respondentes com idades a partir dos 18 anos.

Apesar da disponibilidade destes dados, não há muitos estudos, feitos sobre eles, no contexto português.
Todas estas séries de estudos internacionais têm a vantagem de permitir a comparação entra países e a investigação sobre tendências e fenómenos de alcance internacional. O que gera um problema de contextualização. O inquérito deve ser idêntico em todas as diferentes versões que são aplicadas nos diferentes países. Para isso as questões postas devem ser gerais e descontextualizadas. Mormente no campo religioso, não podem estar dependentes das percepções e especificidades religiosas de cada país ou região. Mas, por outro lado, “les formes de religiosité et les conceptions du divin sont três différents selon les civilizations et on peine à bien mesurer les univers religieux sans tenir compte dês spécificités d’une region” . (BRÉCHON Pierre, La mesure de l'appartenance et de la non-appartenance dans les grandes enquêtes européennes, in Social Compass, 56 (2009) 2, 163-178) A consequência é um certo genericismo das questões; omitem-se as crenças e experiências mais específicas de cada religião em nome de uma vulgata religiosa, mais ou menos consensual entre os especialistas da sociologia da religião.
Mesmo com estas limitações pode ser iluminante determo-nos a estudar os dados disponibilizados e as concepções teóricas que estão por detrás deles.

2011/12/07

Emic vs Etic; qualitativo vs quantitativo

Estou a ler ARROYO MENÉNDEZ Millan, Religiosidade e valores em Portugal: comparação com a Espanha e a Europa católica (aqui)
O autor é um espanhol que se interessa por métodos em sociologia e pela religiosidade. No início deste artigo (onde trabalha com dados quantitativos) faz o reparo:
Apesar de ser a abordagem aqui empregue, a aproximação quantitativa não será a mais desejável.
Para poder optimizar a aproximação empírica aqui abordada são necessários estudos qualitativos através dos quais se possa contrastar e contextualizar o significado dos dados, variáveis e indicadores,quando se abordam temáticas tão complexas como as identificações, as crenças, os valores e as sensibilidades. Estes fenómenos são, no melhor dos casos, difíceis de apreender na sua complexidade a partir de indicadores concretos — que simplificarão necessariamente a realidade abordada. No entanto, os dados de inquérito susceptíveis de extrapolações inéditas são
fáceis de encontrar e o acesso às bases de dados originais também não parece ser complicado, enquanto o acesso a materiais empíricos qualitativos é praticamente impossível, em primeiro lugar, pela grande escassez de estudos desta natureza existentes e, em segundo, porque, quando efectivamente existem, não têm o hábito de facilitar os materiais intermédios (gravações
de áudio, transcrições, etc.) aos investigadores. Seguidamente, apresentaremos uma descrição dos dados estatísticos reunidos e, numa tentativa de ir mais além de uma visão meramente descritiva, ofereceremos interpretações e explicações dos mesmos — cuja confirmação depende da sua contrastação com outras abordagens qualitativas.

2011/11/19

Ando a ler (5)

Por causa das dúvidas estou a ler FURSETH Inger and REPSTAD Pål, An introduction to the sociology of religion. Classical and contemporany perspectives, Aldershot, Ashgate, 2006. Vi a recomendação deste manual de sociologia da religião numa recensão publicada na Análise Social (uma revista do ICS).
Para um não sociólogo como eu, começaram bem, explicando os conceitos base da sociologia, apresentando o pluralismo de ideias que há na sociologia.
Algumas “teses” a reter.
1. Os fenómenos “sociais” podem ser explicados por acumulação de causas individuais. Ou, no lado oposto do espectro, por um sistema estrutural. Ou por uma explicação que fique no meio. Para lá dos extremismos simplistas, as autoras alertam para a tensão que há entre a “sociology from below” (mais atenta ao papel dos sujeitos) e a “sociology from above” (mais atenta ao peso das estruturas).
2. A tensão entre uma perspectiva idealista e outra mais materialista.
3. A tensão entre os que defendem uma visão eminentemente harmónica da sociedade e aqueles que defendem um maior papel do conflito.
4. A evolução de uma visão mais essencialista (estática) da sociedade e do real para outra mais construtivista.

Ando a ler (4)

A ler PAIS José Machado, CABRAL Manuel Villaverde and VALA Jorge, Religião e bioética, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2001.
É um conjunto de estudos feitos a partir de dados da 3ª vaga do ISSP (dados recolhidos em 1998).
O primeiro artigo é CABRAL Manuel Villaverde, Prática religiosa e atitudes sociais dos portugueses numa perspectiva comparada.
Assume-se como um não especialista e sociologia da religião (pag. 21) e declara assumir as “considerações gerais de alguém como Niklas Luhmann”. Luhmann defende que na sociedade industriais e pós-industriais não há um sistema central de significado; todos os sistemas coexistem, de forma mais ou menos articulada, mais ou menos tensa.
Diz Cabral, apoiando-se em Luhmann: “o estudo sociológico dos fenómenos religiosos é forçado a proceder a uma redução metodológica contra aquilo mesmo que, segundo a dogmática religiosa, define a religião, a saber, o facto de esta se representar como explicação global de todos os fenómenos sociais e, portanto, não só transcender a explicação sociológica como na realidade a incluir.” (p. 21)
Ainda não consegui deitar as mãos a um exemplar do Luhmann em inglês e por isso estou às apalpadelas. Mas ficam-me algumas dúvidas.
Onde é que está a ideia que a religião explica, de facto, todos os fenómenos sociais? Mesmo numa “dogmática” que não reconheça a “legítima autonomia das realidades criadas” (Vaticano II) o papel central, hegemónico, se quisermos, da religião coloca-se ao nível do “dever ser”, não ao nível dos factos.
Em nota, Cabral dá como exemplo de uma sociologia da religião superada (e a superar) o texto de Luís França, por este procurar explicar determinados factos a partir de factos intra-eclesiais. Estranho. Que raio de sociologia é esta que tem o sue objecto de estudo desprovido de agência?
Cabral continua a recorrer a Luhmann para fazer a distinção entre experiência e acção. Mas tenho que cá voltar.

2011/11/05

Ando a ler (2)

Continuo no mesmo livro de ontem. Agora a ler o artigo de PETTERSON Thorleif, Religion in contemporary society: eroded by human well-being, supported by cultural diversity, in ESMER Yilmaz e PETTERSON Thorleif, (Edited by), Measuring and mapping cultures: 25 years of comparative value surveys, Leiden, Brill, 2007, 127-154
A tese é interessante. Procura perceber como é que se articula a teoria da descristianização com a teoria do mercado. Tenta identificar quais os factores que contrariam a pressão da modernidade na diminuição da adesão religiosa.
O que me detém hoje é o facto de ser comum neste tipo de estudos feito a partir do EVS(e do WVS) escolher os países como unidades de análise. Somam-se os dados dos países, calculam-se as métricas habituais et voila!
Mas se algo marca hoje a sociologia é a consciência da fragmentação social. Num “país” coexistem uma série de clusters….