Do consensual ao reificado: representação social das atitudes
Há um certo debate acerca da continuidade e/ou complementaridade dos conceitos de RS e atitude.
Mas Howarth defende que as diferenças são profundas. As atitudes nascem numa psicologia de paradigma cartesiano, com um forte dualismo entre corpo-alma, eu-outro, indivíduo-sociedade. A mente é concebida não só como separada do corpo mas também do mundo material e social. Neste paradigma não é possível pensar um “eu social”.
Moscovici ao lançar a TRS usa um paradigma hegeliano, onde as contradições são subsumidas numa síntese.
Pode-se ainda recuperar a distinção que Dewey faz entre concepções mecânicas e orgânicas da sociedade.
As TRS assentam na concepção de relações mutuamente constitutivas entre o indivíduo e o mundo onde se vive.
Atitudes e RS vêm de paradigmas diferentes, têm linguagens diferentes. Por causa do dualismo cartesiano subjacente, os teóricos das atitudes não conseguem analisar as relações entre indivíduo e mundo.
A partir daqui, a autora vai tentar perceber, usando a grelha de análise da TRS, como é que se chegou à teoria das atitudes. Precisamente porque a RS da pessoa como indivíduo se expandiu, chegou-se a uma teoria reificada dessa RS. “A RS das atitudes deriva directamente da RS do indivíduo” (p. 21).
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2009/03/21
Representações sociais e atitudes (3)
Mudanças na conceptualização das atitudes
O que diferencia, e, ao limite, torna incompatíveis, o conceito de atitude e o de RS é a diferente concepção do interface indivíduo-sociedade.
Por razões várias tem-se observado uma crescente individualização do conceito de atitude. E foi uma reacção contra a cultura individualista que levou ao desenvolvimento da TRS.
Mas não seria possível acrescentar uma perspectiva mais social ao estudo das atitudes? A autora identifica algumas tentativas nesse sentido mas mostra-se crítica quanto à qualidade “social” desses esforços. Essas tentativas reconhecem um papel ao social nos conteúdos, nas origens… mas não agarram os processos sociais subjacentes.
“Até à data não há exemplos reconhecidos no campo das ‘atitudes’ que incorporem a relação, interactiva e mutuamente constitutiva, que há entre o ‘individual’ e o ‘social’”. (p. 16)
O que diferencia, e, ao limite, torna incompatíveis, o conceito de atitude e o de RS é a diferente concepção do interface indivíduo-sociedade.
Por razões várias tem-se observado uma crescente individualização do conceito de atitude. E foi uma reacção contra a cultura individualista que levou ao desenvolvimento da TRS.
Mas não seria possível acrescentar uma perspectiva mais social ao estudo das atitudes? A autora identifica algumas tentativas nesse sentido mas mostra-se crítica quanto à qualidade “social” desses esforços. Essas tentativas reconhecem um papel ao social nos conteúdos, nas origens… mas não agarram os processos sociais subjacentes.
“Até à data não há exemplos reconhecidos no campo das ‘atitudes’ que incorporem a relação, interactiva e mutuamente constitutiva, que há entre o ‘individual’ e o ‘social’”. (p. 16)
Representações sociais e atitudes (2)
Atitudes e representações sociais: uma distinção básica
As definições de atitude são inúmeras. Mas tendem a partilhar a noção que, diante de um objecto há uma atitude latente que se vai exprimir num contexto “neutral”. A atitude não corresponde ao comportamento; influencia-o. As atitudes são uma propriedade dos indivíduos. Estes são vistos de forma isolada, dissociados do seu ambiente social, recebendo informação e reagindo a ela. Algumas abordagens têm em conta o ambiente, mas mais como uma variável de fundo. Não se explora o facto de o indivíduo poder influenciar o ambiente e vice-versa. Além disso, a teoria das atitudes não consegue explorar como as atitudes são partilhadas, como certas atitudes se relacionam com outras, qual a relação entre atitudes e identidades e como é que certas atitudes podem influir na sociedade como um todo.
Uma primeira função das RS é dotar o nosso mundo de uma ordem negociada (e, por isso mesmo, negociável) que enquadre objectos, pessoas e acontecimentos.
Para a TRS, os indivíduos são vistos como alguém que activamente participa na construção do ambiente. As RS diferem das atitudes porque não podem ser formadas pelos indivíduos isolados. As RS são moldadas na interacção, no diálogo e na prática com os outros.
Uma segunda função das RS é permitir a comunicação entre membros de uma comunidade, ao fornecer-lhes um código para a interacção social e um código comum para entender a realidade onde existem.
Uma oura função das RS é prescritiva. As RS são partilhadas e tendem a impor-se. O que é prescritivo nas RS é o processo de re-presentação em si mesmo. Não pode haver comunicação dentro de uma sociedade ou grupo sem representação. Isto não quer dizer que a TRS negue o livre arbítrio ou a possibilidade da mudança social. As RS só existem na medida em que circulam em constantes cambiantes, pois são interpretadas e reelaboradas pelos sujeitos. Por isso as RS podem conter doses elevadas de conflito e contradição. Um campo representacional “permite” contradição, fragmentação, negociação e debate.
A TRS permite a conceptualização da polifasia cognitiva. Isto não só permite inconsistências nas RS mas teoriza que essas contradições são centrais para a comunicação, a interacção e a prática social.
Resumindo: o que a teoria das atitudes e a TRS estudam seja semelhante em termos de conteúdo, as suas perspectivas não poderiam ser mais diferentes. As atitudes partem do indivíduo. As RS partem do conhecimento social. As RS são diferentes das atitudes porque existem fora do indivíduo tal como na mente do indivíduo.
As definições de atitude são inúmeras. Mas tendem a partilhar a noção que, diante de um objecto há uma atitude latente que se vai exprimir num contexto “neutral”. A atitude não corresponde ao comportamento; influencia-o. As atitudes são uma propriedade dos indivíduos. Estes são vistos de forma isolada, dissociados do seu ambiente social, recebendo informação e reagindo a ela. Algumas abordagens têm em conta o ambiente, mas mais como uma variável de fundo. Não se explora o facto de o indivíduo poder influenciar o ambiente e vice-versa. Além disso, a teoria das atitudes não consegue explorar como as atitudes são partilhadas, como certas atitudes se relacionam com outras, qual a relação entre atitudes e identidades e como é que certas atitudes podem influir na sociedade como um todo.
Uma primeira função das RS é dotar o nosso mundo de uma ordem negociada (e, por isso mesmo, negociável) que enquadre objectos, pessoas e acontecimentos.
Para a TRS, os indivíduos são vistos como alguém que activamente participa na construção do ambiente. As RS diferem das atitudes porque não podem ser formadas pelos indivíduos isolados. As RS são moldadas na interacção, no diálogo e na prática com os outros.
Uma segunda função das RS é permitir a comunicação entre membros de uma comunidade, ao fornecer-lhes um código para a interacção social e um código comum para entender a realidade onde existem.
Uma oura função das RS é prescritiva. As RS são partilhadas e tendem a impor-se. O que é prescritivo nas RS é o processo de re-presentação em si mesmo. Não pode haver comunicação dentro de uma sociedade ou grupo sem representação. Isto não quer dizer que a TRS negue o livre arbítrio ou a possibilidade da mudança social. As RS só existem na medida em que circulam em constantes cambiantes, pois são interpretadas e reelaboradas pelos sujeitos. Por isso as RS podem conter doses elevadas de conflito e contradição. Um campo representacional “permite” contradição, fragmentação, negociação e debate.
A TRS permite a conceptualização da polifasia cognitiva. Isto não só permite inconsistências nas RS mas teoriza que essas contradições são centrais para a comunicação, a interacção e a prática social.
Resumindo: o que a teoria das atitudes e a TRS estudam seja semelhante em termos de conteúdo, as suas perspectivas não poderiam ser mais diferentes. As atitudes partem do indivíduo. As RS partem do conhecimento social. As RS são diferentes das atitudes porque existem fora do indivíduo tal como na mente do indivíduo.
Representações sociais e atitudes (1)
Um artigo de Howarth pode ajudar-me muito.
(HOWARTH Caroline Susannah 2006: 691-714)(HOWARTH Caroline Susannah 2006 How social representations of attitudes have informed attitude theories: the consensual and the reified. Theory and psychology 16(5):691-714.)
Este artigo não aparece isolado. Há (ou houve) um debate mais ou menos latente entre uma psicologia social “europeia” (mais atenta ao social) e uma outra “americana” (mais atenta ao individual-psicológico).
Howarth tenta perceber como é que um constructo como atitude que nasce com uma forte componente social (cfr Thomas & Znaniecki) evolui para uma perspectiva muito mais individualista. “É minha intenção mostrar como a progressiva individualização da psicologia social conduziu a um intendimento extremamente estreito das atitudes, focado quase exclusivamente no indivíduo descontextualizado e em versões (quase) associais e apolíticas dos seres sociais.” (p. 5)
Ela reconhece que houve ao longo da história da psicologia tentativas de “colocar o social de volta à psicologia social”.
Para perceber o que se passou ela vai usar a teoria da representação social (= TRS) para comparar e contrastar o conteúdo das teorias das atitudes e das representações sociais.
(HOWARTH Caroline Susannah 2006: 691-714)(HOWARTH Caroline Susannah 2006 How social representations of attitudes have informed attitude theories: the consensual and the reified. Theory and psychology 16(5):691-714.)
Este artigo não aparece isolado. Há (ou houve) um debate mais ou menos latente entre uma psicologia social “europeia” (mais atenta ao social) e uma outra “americana” (mais atenta ao individual-psicológico).
Howarth tenta perceber como é que um constructo como atitude que nasce com uma forte componente social (cfr Thomas & Znaniecki) evolui para uma perspectiva muito mais individualista. “É minha intenção mostrar como a progressiva individualização da psicologia social conduziu a um intendimento extremamente estreito das atitudes, focado quase exclusivamente no indivíduo descontextualizado e em versões (quase) associais e apolíticas dos seres sociais.” (p. 5)
Ela reconhece que houve ao longo da história da psicologia tentativas de “colocar o social de volta à psicologia social”.
Para perceber o que se passou ela vai usar a teoria da representação social (= TRS) para comparar e contrastar o conteúdo das teorias das atitudes e das representações sociais.
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